Aguinaldo Silva, um dos mais experientes autores de novelas da TV brasileira, está atento às mudanças no comportamento dos telespectadores. Em entrevista, ele revelou que sua próxima trama, Três Graças (título provisório), será adaptada ao novo ritmo de consumo do público. A novela entrará no ar no segundo semestre, substituindo o remake de Vale Tudo na faixa das nove da TV Globo.
“Não pode perder tempo. Tem que ser curto e grosso”, afirmou Silva, destacando que o público atual não tolera mais cenas longas e arrastadas. Para ele, os tempos mudaram, e a concorrência com plataformas digitais exige um novo formato para os folhetins. “Você tem que lembrar que está concorrendo com TikTok”, argumentou o autor.
“Nesta nova novela, logo no começo tem um jantar que reúne duas famílias ricas em torno de um determinado assunto. Chegou a hora de escrever. E aí pensei: ‘Mais um jantar? Ah, não, vou fazer acontecer alguma coisa, e o jantar não acontece’. Isso que fiz”, disse ele em conversa com a coluna Play, do jornal O Globo.
Em sua versão, um parente de um dos personagens morre, e o jantar se transforma em um desastre total. Essa rapidez da narrativa, segundo ele, é reflexo da influência das séries, que seguem um formato mais dinâmico e envolvente. “Aprendi com as séries. Sou completamente viciado. Na pandemia, acompanhei tudo”, revelou Aguinaldo Silva.
A trama de Três Graças, nova novela de Aguinaldo Silva
A nova novela da TV Globo abordará a trajetória de três gerações de uma família composta apenas por mulheres: avó, mãe e neta. Todas engravidaram na adolescência e enfrentaram desafios como mães solo. O drama girará em torno da tentativa das duas mais velhas de evitar que a mais jovem repita o mesmo destino.
Originalmente escrita como uma minissérie durante a pandemia, a história foi concebida a partir da observação do autor sobre a realidade brasileira. Aguinaldo Silva contou que a inspiração veio após visitar uma maternidade no Rio de Janeiro, onde notou uma fila de jovens grávidas, a maioria menor de 18 anos.
“Fiquei chocado. Pensei em um dia escrever sobre pessoas que engravidam muito cedo de homens que não assumem a responsabilidade. A ideia ficou guardada no meu cofre de futuras histórias. Até que saiu agora. A novela tem uma linguagem bastante popular”, explicou.
Autor diz que não tem mágoa por demissão da Globo
Aguinaldo Silva não teve seu contrato fixo renovado em 2020, após o fracasso de O Sétimo Guardião (2018). Apesar da saída, ele garantiu que mantém uma relação positiva com a emissora. “As pessoas que comandavam o processo que resultou no meu afastamento, por uma dessas ironias do destino, três meses depois também foram afastadas. Sempre disse que não tinha mágoa da Globo. Pelo contrário, devo muito. E ela também me deve. Estamos empatados e seremos felizes para sempre.”
O autor reconheceu que O Sétimo Guardião não atingiu as expectativas. “Eu assumo sem problemas que uma parte do que não deu certo foi responsabilidade minha. Várias coisas não funcionaram, havia um clima interno de bastidores que não era bom. Quando o clima não é bom, não adianta”, disse ele. Na entrevista, ele também comentou sobre o remake de Vale Tudo. Ele é o único autor vivo da trama original que também foi assinada por Gilberto Braga (1945-2021) e Leonor Bassères (1926-2004).
“É complicado falar porque sou completamente apaixonado por Vale Tudo. Foi um dos momentos mais mágicos da minha vida. Tudo dava certo. Não vou negar: como único autor vivo da novela, tenho certo ciúme. Mas estou com expectativas, quero ver, porque, claro, é outra época. Outros tempos, outros costumes”, afirmou. No entanto, Aguinaldo Silva disse que não foi procurado por Manuela Dias, autora da nova versão. “Acho que fez bem. É a versão dela”, concluiu.