ESPECIAL DE ANIVERSÁRIO

Globo Rural celebra 46 anos com reportagem sobre cantos de trabalho

Programa percorre o Brasil para mostrar agricultores que mantêm viva a tradição de usar a música e o ritmo durante a colheita e o manejo da terra

Cristina Vieira e Nélson Araújo sorrindo sentados no cenário do Globo Rural com fundo laranja e verde durante o dominical da Globo
Cristina Vieira e Nélson Araújo; Globo Rural exibe especial sobre cantos de trabalho nos 46 anos - Foto: Reprodução/Globo
Compartilhe:

O Globo Rural deste domingo (4) na TV Globo celebrou uma marca histórica na televisão brasileira. O programa, que completa 46 anos no dia 6 de janeiro, apresentou uma edição especial dedicada inteiramente aos cantos de trabalho. A reportagem percorreu diversos estados para mostrar como a música e o ritmo permanecem essenciais na rotina de lavradores e comunidades rurais, servindo como ferramenta de união, resistência e alívio para o esforço físico.

O que você precisa saber

  • Globo Rural celebra 46 anos com especial musical.
  • Nelson e Marli unem assobio e trabalho no Paraná.
  • Mulheres fiam algodão e cantam no norte de Minas.
  • Destaladeiras de fumo mantêm tradição em Arapiraca.
  • Batida do feijão vira ritmo musical no sertão.
  • Ritmos nascem do coração e do andar, diz perito.
  • Aldeia Kariri Xocó usa o canto Toré no plantio.

O assobio como companhia no Paraná

A jornada musical começou no Paraná, em Faxinal do Emboque, uma comunidade formada por imigrantes poloneses. Ali, o agricultor Nelson se destaca por trabalhar na contramão da modernidade barulhenta das máquinas. Ele utiliza o assobio constante como companhia para todas as tarefas, desde arar a terra até tratar dos animais.

Nelson define o assobio como uma forma de colocar a tarefa no compasso. Ele e sua mulher, Marli, descendente de ucranianos, dividem o trabalho pesado há quase 50 anos. O casal preserva um barracão centenário construído pelo avô de Nelson, onde máquinas movidas a braço e madeira ainda processam fubá e farinha. Apesar do apego à tradição, Marli domina a internet para aprender receitas e fórmulas de produtos de limpeza, que ela fabrica para vender e complementar a renda.

A tradição do algodão e da farinha em Minas Gerais

No norte de Minas Gerais, a reportagem destacou a arte de fiar algodão. Mulheres da Associação de Artesãs Central Veredas transformam a fibra natural em fios e tecidos, mantendo viva uma prática ancestral. O trabalho manual gera cerca de R$ 350 mil por ano e beneficia diversas famílias, desde quem planta o algodão até as bordadeiras.

Já na região noroeste do estado, na Fazenda do Tourinho, a produção de farinha de mandioca mobiliza a família Branca. O processo envolve arrancar, descascar, lavar, triturar, prensar e torrar a raiz. Durante a torra, canções antigas ditam o ritmo e aliviam o calor dos fornos. As matriarcas Celina e Branca, ambas com mais de 70 anos, já participaram de mais de 500 mutirões.

As destaladeiras de fumo de Arapiraca

Em Alagoas, o Globo Rural visitou Arapiraca, conhecida historicamente como a capital do fumo. A cultura do tabaco, embora menos pujante que no passado, ainda sustenta a agricultura familiar. Mulheres como Rosália, Isabel e Gilza, antigas trabalhadoras dos salões de fumo, formam o grupo das Destaladeiras de Arapiraca.

O trabalho consiste em retirar o talo grosso da folha do fumo, uma tarefa repetitiva e fastidiosa. Antigamente, essa atividade ocorria em grandes salões coletivos, onde o canto era fundamental para espantar o sono nas jornadas noturnas. Hoje, o destalo é feito de forma doméstica e solitária. A reportagem alertou para os riscos do uso de agrotóxicos na lavoura, que causam mal-estar nos produtores. Para preservar a memória dessas canções, a cidade planeja criar um centro de memória em homenagem ao mestre Nelson Rosa, incentivador do grupo.

A ciência por trás do ritmo

O especial conversou com o doutor Ivan Garcia, especialista da Universidade do México. Ele explicou que os cantos de trabalho estão na “infância da humanidade” e surgiram da necessidade de sincronizar movimentos coletivos. Segundo o pesquisador, o ritmo é algo biológico, presente desde as batidas do coração ainda no ventre materno. Ele citou exemplos globais, como canções de marinheiros e vaqueiros venezuelanos que cantam para acalmar o gado na ordenha.

Onde a enxada vira instrumento

No sertão da Bahia, em Serra Preta, a colheita do feijão demonstrou a aplicação prática da teoria do ritmo. O processo de bater feijão com varas exige precisão absoluta: se alguém perder o tempo da batida, pode atingir o colega ou se machucar. O som dos paus batendo nas vagens cria uma percussão natural que organiza o trabalho coletivo.

O programa também mostrou como ferramentas de trabalho evoluíram para instrumentos musicais. O percussionista Pitico apresentou o cajón, instrumento de origem afro-peruana criado a partir de caixas usadas por escravizados para transportar mercadorias. Na Bahia, até a lâmina de uma enxada é usada como instrumento de percussão para acompanhar o samba de roda.

Espiritualidade e conexão indígena

A celebração encerrou com a visita à aldeia Kariri Xocó, em Porto Real do Colégio, Alagoas, às margens do Rio São Francisco. Diferente de outras regiões rurais, a aldeia se localiza em uma área urbana, mas mantém rituais profundos de conexão com a terra.

O professor e pajé Pau Hanã ensina a língua nativa e os cantos sagrados na escola local. Durante o preparo do solo e o plantio da mandioca, a comunidade entoa o Toré. Para os indígenas, o canto não é apenas uma forma de passar o tempo, mas um meio de fundir o corpo e o espírito, abençoando o alimento que sustentará a aldeia.

O Globo Rural teve apresentação de Cristina Vieira e Nélson Araújo. Assista à íntegra no Globoplay.

Portal da TV © 2026 – É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, seja eletrônico ou impresso, sem a devida autorização por escrito.

Foto de Túlio Medeiros
Túlio Medeiros
Editor-chefe do Portal da TV e escreve sobre televisão e colabora com sites de entretenimento desde 2010. Além de novelas e programas de auditório, sua preferência nas telinhas é acompanhar telejornais locais e nacionais das principais emissoras brasileiras.

Preencha os campos abaixo para apontar erro na reportagem: