O Globo Rural deste domingo (3), na TV Globo, com apresentação de Cristina Vieira e Helen Martins, teve uma edição voltada aos desafios da produção no campo, da crise no alho à mecanização da agricultura familiar. O jornalístico também mostrou a retomada de lavouras no Rio Grande do Sul, dúvidas de telespectadores sobre cultivo, resgate de animais silvestres e novidades exibidas na Agrishow.
A edição começou com a recuperação de propriedades gaúchas atingidas pela enchente de maio de 2024. Em seguida, o noticioso rural mostrou produtores de alho pressionados por custos altos, preços baixos e concorrência externa. O programa também abordou o trabalho de voluntários em Minas Gerais, respondeu perguntas sobre quiabo e cacau e encerrou com máquinas chinesas usadas por agricultores familiares no semiárido.
Globo Rural mostra retomada das lavouras no Rio Grande do Sul
As enchentes que marcaram a história recente do Rio Grande do Sul completaram dois anos. Para agricultores de áreas afetadas, o período exigiu recuperação de solo, lavouras, cercas, taipas e estruturas produtivas. Em Candelária, no coração do estado, o arroz maduro no campo virou símbolo da retomada após a cheia do Rio Pardo destruir plantações e comprometer estoques guardados em silo.
O agricultor Sandor teve a lavoura de arroz atingida pela enchente em maio de 2024, mas conseguiu recuperar a área. Apesar disso, ele relatou nova preocupação com o preço do produto. Segundo o produtor, o valor pago atualmente está abaixo do custo de produção, situação que agravou o impacto econômico depois das perdas causadas pela cheia que atingiu mais de 200 mil propriedades gaúchas.
Sandor comparou a perda atual com a situação vivida na enchente. “Em lavoura é coisa. Melhorou, mas tem o pior do que quando a enchente na enchente eu perdi 40%. Só que eu vendi arroz a 125. Agora estou vendendo arroz a 50. Dá mais de 50% a quebra esse ano. Em relação à enchente”, afirmou o produtor ao programa da TV Globo.
Outro exemplo veio de Santa Cruz do Sul, no Vale do Rio Pardo. O agricultor Sérgio cultiva 100 hectares de arroz e soja e afirmou que o solo ainda não recuperou a fertilidade anterior. “O solo ficou diferente. Teve dano de rompimento de lavouras, no caso, estrutura de taipa, cercas foram tudo destruídas. Aos poucos estamos reconstituindo elas”, declarou.
Márcio Madalena, secretário de Agricultura do estado, afirmou que os produtores já enfrentavam estiagens recorrentes antes da enchente. “Nós já vivíamos no estado do Rio Grande do Sul. Estiagens recorrentes. Então, temos aí um problema acumulado no estado de endividamento de outros problemas dos agricultores também, que são decorrentes desse processo de alteração climática”, disse o representante do governo estadual na reportagem.
Ele também apontou retomada parcial em algumas regiões, mas reconheceu sequelas produtivas. “Nós observamos uma retomada em algumas regiões do estado do Rio Grande do Sul, mas, por óbvio, ainda temos algumas sequelas aí do ponto de vista produtivo em regiões específicas”, declarou. O programa também registrou instalação de sistema da Defesa Civil na Serra Gaúcha para monitorar chuva e encharcamento do solo.
Produtores de alho sofrem com preços baixos e concorrência externa
O Globo Rural também mostrou a crise enfrentada por produtores de alho no país. Em galpões, trabalhadores preparavam sementes armazenadas em câmaras frias desde a safra passada. As cabeças eram debulhadas, com separação dos dentes maiores para o plantio. O trabalho manual mobiliza muitas pessoas, em especial mulheres, e tem peso social em regiões produtoras do Centro-Oeste e do Sul.
O produtor Rafael Corsino explicou o peso da mão de obra no cultivo. “Nós trabalhamos com aproximadamente 100 mulheres preparando a semente. É um serviço muito manual, muito delicado. Por isso que a cultura do alho tem uma importância social muito grande”, disse. A reportagem mostrou Enedina, que saiu de Minas Gerais em busca de emprego e conseguiu carteira assinada no setor havia três anos.
Enedina relatou a falta de trabalho em sua cidade de origem. “Na minha cidade não tem serviço nem nada. Aí a primeira oportunidade foi quando nós chegamos no Goiás”, contou. Apesar da geração de emprego, a cultura do alho passa por crise de custo e preço. Na propriedade mostrada, a área caiu de 170 hectares, semeados no ano anterior, para 100 hectares na safra atual.
No país, a previsão citada pelo programa é de 16 mil hectares plantados com alho, 3 mil a menos que na safra anterior. Corsino afirmou que deixará de contratar 100 trabalhadores por causa da retração. “O custo para produzir uma caixa de alho em torno de R$ 13 o quilo. Para a gente pagar tudo o ano passado inteiro, nós vendemos abaixo do nosso custo de produção”, declarou.
O Brasil consome 320 mil toneladas de alho por ano, mas produz 170 mil toneladas, de acordo com a reportagem. Para suprir a demanda, o país importa parte do produto, com 60% vindo da Argentina e o restante principalmente da China. Mesmo com tarifa extra aplicada ao alho chinês desde a década de 1990, o produto chega ao Brasil por cerca de R$ 10 o quilo.
Letícia Barony, assessora técnica da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), afirmou que há dano ao setor nacional. “No caso do alho chinês, realmente já é comprovado um mercado desleal em função de práticas adotadas no país. Os subsídios aplicados em armazenagem em estruturas de comercialização nas estruturas produtivas fazem com que o alho chinês chegue aqui no Brasil e provoque um dano à indústria nacional no sul do país”, disse ao programa.
No Sul, a reportagem destacou a chegada de alho argentino com preços mais baixos e o impacto sobre cerca de 500 pequenos agricultores. Franchielle Motter, presidente da Associação dos Produtores de Alhos do Rio Grande do Sul, resumiu a situação. “Nós estamos trabalhando hoje aqui no Sul com 5 R$ em quilo de prejuízo. Isso é alarmante. Tem produtor que ainda tem 100%. Ele está aguardando que melhore a condição de comercialização e ele ainda está com 100% a comercializar”, declarou.
Em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, galpões ficaram lotados com a safra do ano passado. Em Curitibanos, em Santa Catarina, o produtor Everson Tagliari relatou risco de descarte. “Hoje aqui eu estou com 50 toneladas de alho armazenado aqui, né? E se não vender nesses 30 dias, a gente vai ter que descartar jogar fora, né? Não tem outra alternativa, né?”, afirmou.
Giro mostrou safra de cana, conflito em Amambai e cheia em Rondônia
No giro de notícias, o Globo Rural informou que a Conab divulgou o primeiro levantamento da safra 2026/2027 de cana-de-açúcar. A expectativa apresentada é de colheita 5% maior que a temporada anterior, com volume acima de 709 milhões de toneladas. A atração também registrou tensão em Amambai, em Mato Grosso do Sul, em disputa por terra reivindicada como território tradicional.
Segundo o programa, indígenas dos povos Guarani Kaiowá entraram em confronto com a Polícia Militar após a ocupação de uma fazenda situada em área reivindicada. A região está em processo de demarcação há anos. Em Rondônia, a alta do Rio Madeira levou a Prefeitura de Porto Velho a decretar situação de emergência após a cheia atingir 27 comunidades ribeirinhas.
A apresentadora do tempo, Cínthia Toledo, explicou o cenário climático. “A combinação entre calor e umidade trouxe muita água para Rondônia nos últimos meses. E aí o Rio Madeira ficou vários dias acima dos 15 metros, nível considerado de alerta. Mas a partir de agora o volume deve cair”, informou durante a edição.
Cínthia afirmou que maio ficaria mais seco no Norte, no Sudeste e no Centro-Oeste, com chuva concentrada em parte do Nordeste e no Sul. Ela também alertou para uma massa de ar polar a partir de sexta-feira, com queda de temperatura perto da fronteira com o Uruguai, mínima de -3°C e risco de geada. Em Urupema, a paisagem amanheceu coberta de gelo.
Animais silvestres recebem cuidados em Minas Gerais
A edição mostrou o trabalho de resgate e acolhimento de animais silvestres em Minas Gerais. No Centro de Triagem de Animais Silvestres, em Juiz de Fora, na Zona da Mata Mineira, chegam bichos vítimas de atropelamento, maus-tratos e apreensões em fiscalizações. A reportagem mostrou casos de animais feridos, presos por linha e resgatados em árvores com cerca de 12 metros de altura.
O tenente Ricardo Ferreira, do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, explicou a rotina de atendimento. “A gente atende todo dia ligações pedindo para resgatar os animais. Ele vai até o local e faz o serviço”, afirmou. A reportagem também tratou do tráfico de animais silvestres. “Existem estudos que apontam ele como terceiro maior comércio ilegal do mundo, perdendo apenas para as armas e para as drogas”, disse o sargento Teófilo Larcher, da Polícia Militar Meio Ambiente.
O mesmo entrevistado ressaltou a necessidade de fiscalização. “Então, é um comércio muito lucrativo, que exige uma atenção especial da Polícia Militar e dos órgãos de fiscalização para que a gente possa combater esse tipo de comércio”, afirmou. No centro, todos os animais passam por avaliação médica. Um filhote de tatu atacado por cachorro recebeu medicamentos, exames e acompanhamento até melhorar sua condição física.
A veterinária Laura Oliveira detalhou os procedimentos. “Então eles vão ser avaliados clinicamente, são submetidos aos exames de sangue, são submetidos às radiografias para conseguir o melhor para animal naquele momento”, disse. A reportagem também mostrou Rita de Cássia, moradora próxima à mata que encontrou um gambá ferido no quintal de casa e levou o animal ao local adequado para atendimento.
Rita explicou a decisão. “Eu vi que ele estava com umas escoriações na face, então eu resolvi trazê lo para o Ibama, que é o lugar adequado”, declarou. O programa apontou que nem todos os animais conseguem voltar à natureza. Lesões graves ou alterações de comportamento podem impedir a soltura. Uma lobo-guará com traumatismo craniano e perda parcial da visão foi citada como exemplo.
Reserva em Pedra Dourada abriga bichos que não voltam à natureza
A reportagem do Globo Rural percorreu 215 km até Pedra Dourada, município mineiro com pouco mais de 2 mil habitantes, para mostrar uma área de conservação na Mata Atlântica. O local pertence a Wdson Brum, que nasceu na zona rural, trabalhou como empresário no exterior e comprou a propriedade de seis hectares havia seis anos para retomar o contato com a natureza.
Wdson descreveu o espaço. “Aqui é um lugar fantástico. A gente tem uma fauna muito rica, uma flora muito rica”, afirmou. A área virou uma reserva particular do patrimônio natural e abriga animais silvestres com autorização do Ibama e do Instituto Estadual de Florestas. O responsável disse que precisa apresentar planos de manejo, alimentação e higiene sanitária para manter a atividade.
Ele explicou o cuidado com animais que não podem ser soltos. “Eles estão em ambientes adequados às suas novas necessidades. Eles não podem mais voar. Não podem caçar. Apesar de serem animais silvestres selvagens, ainda assim, dar a eles uma qualidade de vida em locais adequados que não há natureza”, declarou. O trabalho diário depende de voluntários que ajudam na limpeza, alimentação e manejo.
O voluntário Paulo Sampaio explicou a motivação. “É uma maneira da gente devolver de graça o que a gente recebe de graça. E cuidar dos animais realmente é um prazer”, disse. Outra voluntária relatou o vínculo com os bichos. “São animais que precisam muito de amor, carinho, cuidado. Vê los assim me gratifica muito”, declarou. O abrigo usa recursos próprios, doações e café orgânico para cobrir custos.
Wdson disse que as despesas envolvem equipe técnica e manutenção. “Nós temos veterinários, biólogos, cuidadores que a gente tem, pessoas que trabalham diariamente com esses animais e manutenção”, afirmou. A reportagem mostrou ainda a jaguatirica Mogli, primeiro animal a chegar ao local. Resgatada ainda filhote e muito ferida, ela ficou cerca de três meses em UTI e perdeu o instinto para retornar à natureza.
Dúvidas dos telespectadores: colheita do quiabo e poda do cacaueiro
O programa abriu a seção de perguntas com uma dúvida de Jyun Kato, de Una, na Bahia, sobre o ponto correto de colheita do quiabo e a retirada de folhas. A repórter Bruna Vieira foi a uma propriedade em Iperó, em São Paulo, para conversar com o técnico agrícola Allan Ribeiro e mostrar o manejo adequado do fruto.
Allan explicou o ponto comercial. “Porque ele está no tamanho mais comercial dele. Então a gente colhe o quiabo Aí quando ele tá com o tamanho entre oito cm e 12 até 15 cm no máximo”, afirmou. Sobre o período após o plantio, ele disse que calor e umidade aceleram a produção, mas, em geral, o produtor colhe entre 90 e 100 dias.
O técnico também ensinou um teste simples de amostragem. A orientação é quebrar a pontinha de um quiabo escolhido na planta. Caso ela saia facilmente, o fruto está no ponto de colheita. Caso entorte muito antes de sair, o quiabo já passou do ponto ideal. Para retirar o fruto, o cabinho deve ser cortado perto da base, rente ao caule.
Allan orientou o horário de colheita em regiões quentes. “À colheita do quiabo, principalmente em regiões mais quentes. Sempre vai ser de manhãzinha, então o pessoal começa a colher o quiabo a partir das 06h00 até no máximo 11h00”, disse. Ele explicou que, à tarde, o fruto fica mais rígido e os espinhos podem causar irritações em quem trabalha.
Sobre as folhas, Allan foi direto. “As folhas ficam, as folhas ficam. A gente não retira as folhas porque as folhas estão aqui fazendo a fotossíntese e gerando energia aqui para a produção, para o desenvolvimento da planta. Ela mesmo vai cicatrizar aqui rapidamente e vai continuar produzindo já a partir do próximo dia, sem nenhum tipo de problema”, afirmou.
A segunda dúvida veio de Heloísa, de Machadinho do Oeste, em Rondônia, sobre a poda do cacaueiro. A reportagem ouviu Carlos Rosa, agrônomo da CATI, em uma área de pesquisa com diferentes espaçamentos de cacau. Ele explicou que a poda deve começar aos seis meses e seguir em ciclos até a planta atingir três metros.
Carlos detalhou as funções da poda. “Ela tem basicamente duas funções, né? Uma delas é ordenar o crescimento da planta para que ela consiga suportar todo o peso dos frutos. E um outro momento também que ela já está em produção para a gente limitar a altura da planta, tornar ela mais ergonômica”, declarou. Segundo ele, o cacaueiro exige proteção no centro da copa.
O agrônomo explicou a formação dos ramos. “Qual que é a ideia? A gente selecionar ramos com comprimento de em torno de 60 centímetros. Tá um pouquinho a mais, Um pouquinho a menos. A gente tem aqui a formação de um Y, né?”, disse. Ele também recomendou a retirada de ramos mal posicionados e, em áreas úmidas, aplicação de fungicida à base de cobre após cortes.
Agrishow exibiu tecnologia para pequenos produtores
A edição destacou a 31ª Agrishow, realizada em Ribeirão Preto, em São Paulo, com máquinas para diferentes portes de produção. Entre os equipamentos, o programa mostrou piloto automático que pode ser instalado em tratores menores. A tecnologia, antes mais presente em máquinas grandes, promete reduzir custos operacionais em até 15%, segundo a reportagem, por melhorar precisão, tempo e uso de combustível.
Lucas Zanetti, gerente de marketing, o funcionamento. “Ele vai fazer com que o produtor operador faça realize o trabalho em menor tempo. Vai reduzir o custo de combustível dele, porque ele vai fazer de forma mais precisa e vai ter uma qualidade maior lá na operação, seja no plantio, pulverização. Qualquer que seja, o piloto automático, está ali para estar gerando esses benefícios”, afirmou.
O produtor Marco Tavares, que cultiva coco no Ceará e na Bahia, disse que busca tecnologia diante da dificuldade para encontrar mão de obra. “Todo maquinário, implemento que vier para diminuir mão de obra é minimizar custo com nova tecnologia É muito bom para nós, produtores”, declarou. A feira reuniu mais de 800 expositores nacionais e internacionais com soluções para produtividade e sustentabilidade.
A reportagem também mostrou uma colheitadeira de milho projetada para trabalhar com três linhas ao mesmo tempo. O equipamento aparece como alternativa para colher mais em menos tempo e economizar combustível. Antônio Siqueira, sócio da empresa, explicou: “Com o mesmo óleo diesel que o pessoal vai colher uma linha, duas linhas, vai colher três linhas. A vantagem? Ele vai economizar tempo. Óleo. Hoje o problema da guerra é mundial. O óleo se tornou um preciosidade”.
Globo Rural aborda máquinas chinesas no semiárido
A última reportagem do Globo Rural tratou da mecanização na agricultura familiar em Apodi, no semiárido do Rio Grande do Norte. O programa mostrou o contraste entre a enxada, ferramenta usada há milhares de anos, e máquinas chinesas adaptadas a pequenos cultivos. A família de Lúcia, Limalto e Felícia ainda trabalha com horta, caju e criação de porcos em regime manual.
Limalto contou quanto tempo leva para fazer um canteiro. “Na verdade, demora umas três ou 04h00. A gente consegue fazer um canteiro com dez metros de comprimento”, disse. A filha Felícia afirmou que a permanência dos jovens no campo depende de tecnologia. “A gente teria que ter envolver aqui dentro mais tecnologia para que a gente tenha atração, a vontade, o querer de estar aqui dentro”, declarou.
O programa apontou que o Nordeste concentra metade dos agricultores familiares do país, mas tem baixo acesso a máquinas. Pouco mais de 1% das propriedades familiares da região tem tratores. Nas colheitadeiras, o índice é de 0,1%. O agricultor Leidiano, que usava tração animal, passou a trabalhar com motocultivador em rodízio entre produtores participantes do projeto.
Leidiano comparou o tempo de serviço com a nova máquina. “A máquina funciona mesmo. Deixa o serviço de primeira. Quanto você ganha de tempo com essa máquina? Serviço que vai fazendo? Um dia você faz em meio dia ou antes de meio dia”, afirmou. O equipamento chegou por uma parceria entre Consórcio Nordeste, governo federal, instituições estrangeiras e a Universidade Agrícola da China.
O projeto trouxe 30 máquinas ao Nordeste, destinadas à Paraíba, Maranhão, Ceará e Rio Grande do Norte. No estado potiguar, quatro municípios receberam equipamentos. Em Apodi, as máquinas chegaram em janeiro de 2024. O agricultor Edmilson passou a usar um tratorzinho para nivelar o terreno e preparar o plantio de arroz vermelho irrigado.
Edmilson perdeu a mão em um acidente quando era jovem, mas comanda o equipamento. Com o trator, um trabalho de 20 dias passou a ser feito em duas horas, segundo a reportagem. Ao ser perguntado sobre a enxada, ele respondeu: “Agora a gente tá mais tranquilo. A saudade a gente não sente, não tem saudade, coisa ruim não quer saber de coisas boas, né?”.
A reportagem também mostrou problemas de manutenção. Uma colhedora de arroz chegou quebrada de outra propriedade. “Ela tá com motor batido. Ele já mandou vim aqui, ele vai vim segunda. Uma equipe da China que eles são sempre estão por aqui e vai vir o gerente geral e tomar de conta das máquinas, né?”, disse Edmilson. Uma máquina desse porte custa cerca de R$ 300 mil.
Minli Yang, professora da Universidade Agrícola da China, comparou o modelo brasileiro com a experiência do país asiático. “Essas cooperativas podem fornecer máquinas agrícolas de forma mais fácil para os agricultores. E é assim que estamos conectando as terras agrícolas aos pequenos produtores”, afirmou. Henrique Carvalho, assessor da Embrapa disse que a China é grande produtora mundial de máquinas e exporta equipamentos para diversos países.
Agricultores cobram peças, crédito e produção local de máquinas
Em reunião acompanhada pelo Globo Rural, agricultores de Apodi demonstraram empolgação e preocupação com o projeto. O agricultor Francisco Edjarles relatou receio com a reposição de peças. “Nós não temos essas peças pra colocar reposição e aí fica defasado”, disse. Ele completou: “Você não vai usar só uma vez. Máquina vai quebrar. Se você não tiver pra repor, vai ficar parada”.
Alexandre Lima, secretário de Agricultura Familiar do estado, afirmou que a produção de máquinas no Nordeste e o crédito adequado precisam avançar. “Nós temos que ampliar a produção de máquinas aqui no Nordeste. Esse sempre foi um ponto central desse processo de cooperação com a China. Um outro ponto central é melhorar as políticas de crédito e ter um sistema de crédito mais adequado à realidade da agricultura familiar”, declarou.
A agricultora Alcione Marinho já saiu da fase de testes e comprou um motocultivador por R$ 3.400. Ela afirmou que o financiamento teve carência de dois anos e condições ligadas ao ciclo produtivo. “Eu estou plantando mais porque de primeiro a enxada cansava muito e agora o esforço é mais pouco”. Questionada se sente saudade da enxada, ela foi categórica: “Não. Nem um tico. Ela dá calo”, disse.
Alcione também relatou mudança na rotina com o marido Aroldo, pois os dois passaram a trabalhar juntos na criação de porcos. “Assim, todo dia é bom, a pessoa se distrai, não sai briga, não vai ver só. Mas é normal, né? Só que ele é muito teimoso. Ele não quer me escutar não. Às vezes eu quero mandar e você sabe”, declarou.
O projeto também leva estudantes estrangeiros ao campo. Jiao Jikai explicou sua função: “Meu trabalho é coletar e analisar informações com os agricultores familiares, além de ensinar a usar as máquinas chinesas por aqui”. Tula, que está há dois anos em Apodi, elogiou o país: “O Brasil é um país muito, muito legal e bonito”.
No Instituto Federal do Rio Grande do Norte, os estudantes estrangeiros trocam conhecimento com alunos do curso técnico em Agropecuária. A parceria também testa armadilhas para insetos em plantação experimental de caju. O professor Vinícius Claudino disse que o próximo passo é levar os equipamentos às propriedades de produtores de castanha de caju para avaliação direta no campo.
Vinícius avaliou o futuro da mecanização local. “É uma questão de Nordeste, onde a gente possa ter máquinas, inclusive adaptadas a produção local. Então, no futuro, eu espero que a gente esteja produzindo conhecimento, produzindo tecnologia. Que essa questão da mecanização esteja evoluída, que a gente já tem a possibilidade de dar acesso aos agricultores e que cada vez mais a tecnologia seja nossa, seja nacional, seja de Apodi”, afirmou.


